respeita as mina

As apertadinhas

Acho que nunca vou deixar de me surpreender com nossa capacidade de atingir níveis cada vez maiores de babaquice.

Particularmente, não gosto de música sertaneja. Não sertaneja trash (“Evidências” é amor, é vida). Essa eu até gosto. Quando toca no rádio, eu canto com falsete e tudo. Me faz lembrar dum passado bom que não existiu, mas de que eu lembro bem. Não gosto desses novos, do tal do universitário (que até hoje não entendo o porquê desse nome e, sinceramente, nem me interessa).

Não gosto de nada: nome de duplas, vozes, arranjos e nutro um nojo particular pelas letras. Tem sempre uma pegada misógina-ostentação-putaria-alcolismo.é.legal. Daí que eu tive a oportunidade de acessar um resumo de todo esse clichê-merdão em forma de festa/flyer.

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É sério isso, produção?!!

Pelo que eu entendi, as mulheres entram e bebem de graça até a primeira não segurar o xixi. Depois que a primeira vai ao banheiro a homarada entra. De preferência de pau duro e na mão. Porque, afinal de contas, a mulherada já vai estar trêbada facinha-facinha. Putz, tem que ser muito loser pra depender de álcool para conseguir uma trepada.

Fico pensando na alegria dos criadores quando pensaram neste maravilhoso (not) trocadilho para dar nome à festa.

Se fosse mulher – seria uma sapatão sinistraça –, proporia um boicote. Se não conseguisse quórum pra o intento, eu: 1) entraria na festa e iria direto pro banheiro; ou 2) beberia até fazer bico e quando os caras entrassem, sairia lindamente porque

Sei que minha visão ~do movimento sertanejo~ é limitada, mas qual visão não o é? E, além disso, nasci velho e tenho preguiça de toda essa zuera never ends. Entretanto, a parte que eu consigo ver dessa cultura não me agrada muito. Mas, como toda manifestação cultural, reconheço ser legítima e reflexo do nosso momento histórico.

Agora, uma nota para o futuro: vamos todos morrer de vergonha disso também daqui a alguns anos. Igualzinha a que temos do axé dos anos noventa, com aqueles shortinhos, coreografias e strip-teases ao vivo nos domingos à tarde. Escreve o que tô te dizendo. Aliás, precisa não, já escrevi.

Lugar de mulher

Tenho ouvido muito o último trabalho do Filarmônica de Pasárgada, o Rádio Lixão. A proposta desse segundo CD (que sucede o maravilindo O Hábito da Força), ao meu ver, é juntar vários ritmos musicais como se estivéssemos mesmo ouvindo uma rádio que toca de tudo um pouco e não um disco fiel a um único ritmo ou gênero.

Tal proposta por si já seria motivo mais que suficiente para eu ouvir Rádio Lixão até meus ouvidos sangrarem, mas tem mais. Muito mais. As letras são uma delícia e nos permitem construir relações com outras bandas, outros discos, outras letras, outros mundos… Das minhas faixas preferidas, destaco “Fiufiu”, um funk com uma batida que faz dar vontade de descer, subir, empinar, rebolar  e derrubar forninhos.

Mas um primor mesmo é a letra de “Fiufiu”. Graças a ela, de fato compreendi que – diferentemente do que eu pensava – nem toda mulher gosta de ser chamada de “gostosa” na rua, que um “fiufiu”, um “ô lá em casa”, um “te faço todinha” e afins podem, sim, ser percebidos como agressão e assédio, assim como uma encoxada no metrô e o “abuso no busão”.

Veja, ouça, goze o Filarmônica e depois a gente volta a se falar.

Particularmente interessado pelo assunto e, após ler o texto da Juliana Cunha sobre a menina da Raul Pompeia e assistir ao Na Moral, conheci o blog Lugar de Mulher (onde a Clara Averbuck ♥ ♥ também escreve) e a campanha “Chega de Fiu-Fiu” da qual eu amorosamente peguei emprestado essas belezuras de imagens.

 

É obvio que eu não passo por esse tipo de constrangimento, nasci sob o gênero masculino e não sou nada gostoso, mas muito me apetece essa manifestação pública de desagrado por parte das mulheres porque, olha só, a vida toda eu fui  levado a acredita que elas/vocês DE FATO gostavam disso. Algumas até gostam, é verdade, mas como diz outra imagem da campanha: “não dá pra brincar de roleta russa até achar o alvo”.

A televisão (sou da geração criada por essa maravilhosa babá eletrônica), com suas novelas, filmes, e desenhos animados, me ajudou a elaborar a ideia de que insulto seria se uma mulher, ao passar por um canteiro de obras (exemplo clássico!), não for chamada  a plenos pulmões, de “GOSTOSA!!!!!!!11!!”. Juro. Juro mesmo.

Ou então que as mulheres o tempo todo querem ser conquistadas e quando negam uma investida masculinas estão apenas querendo se fazer de difícil para apimentar a brincadeira toda. Resumindo: toda mulher é maluca e está desesperadamente atrás de um homem que cuide dela.

Uma onda de otimismo e muitas memórias (boas) de futuro me tomam quando percebo, ainda que localmente, movimentos de vozes milenarmente silenciadas se fazem ouvir com um volume cada vez maior como neste caso das mulheres. Fazendo barulho e mostrando que nada é, que tudo está sendo, numa eterna (re)construção.

Expectativa

Realidade

Realidade