textão de blog

Um desabafo antes do fim do mundo

Texto escrito por Guilherme Perez Cabral para o Uol Educação

O cenário é desolador, solitário e infeliz (mas não conte pra ninguém). Buscamos um sucesso individual que se expressa em termos de consumo. O consumo de bens, muitos bens, todos os bens: um `ter` birrento, mimado e desenfreado. Eu quero! E, para piorar ainda mais, não basta ter. Onde a imagem predomina, é preciso, acima de tudo, parecer. Mostrar para o mundo que conseguimos comprar. Parecemos felizes. Pouco importa, no fim das contas, o que somos ou poderíamos ter sido.

Guy Debord, nos idos de 1960, já falava disso. A degradação do `ser` em `ter` e, no fim da linha, em `parecer`. É o que importa, hoje: parecer. É lá que reside todo o prestígio e a função de um `ter` sem sentido, sem conteúdo.

Eis um descaminho que não nos leva a lugar nenhum. São tantas as coisas que se tornaram `necessidades`, fundamentais e prementes, pela publicidade ostensiva, vinda de todos os lados, em todo momento – o carro, o celular, a televisão, a casa, até shampoo, tudo dos sonhos. Sem eles não dá pra ser vedete. Nem sobreviver. Tudo isso, num grande teatro de mentirinha, sempre repetido, tão repetitivo como o enredo de novela. Eu canso. Amanhã, o próximo sonho de consumo, absolutamente indispensável (por pouquíssimo tempo), exposto na prateleira, revelará o quanto o anterior não tinha, no fundo, valor nenhum. As `pseudonecessidades`, incessantemente criadas, à venda no mercado, opõem-se, no fundo, à vida que não tivemos tempo de viver.

Chegamos em casa, depois de um dia de trabalho, extenuados. Passamos por diversos eventos, engolimos distintas informações. Trânsito, jornal, reunião, fast food, supermercado, fila, conta. Mas, sobrevivendo a tudo isso com pressa, no piloto automático, não experimentamos nada. Não sentimos o gosto. Não nos encontramos com os outros, que não (re)conhecemos, nem conosco (que estranhamos ao olhar no espelho). Cito a fonte, aqui. É Giorgio Agamben.

Se a felicidade está na realização de nossas vontades, num equilíbrio tênue entre nossos desejos e a capacidade de efetivá-los (isso tem um pouco a ver com a ideia de liberdade, para Schopenhauer), ela se tornou um bem inacessível. Diante de tantas necessidades e desejos, com tamanha dimensão, ainda que a felicidade fosse consumível, não teria para todo mundo.

A ordem, então, é correr. Corremos para chegar primeiro. Corremos nem sei mesmo o porquê. Cada um por si, concorremos. Sem rumo.

Para aguentar a pressão e a frustração, sejamos fortes. Chorar é sinal de fraqueza. Abraçar é para os fracos. Nem a tão importante liberação sexual fez com que nos encontrássemos. Consumimos corpos, pelo seu valor de troca, divididos entre o sonho romântico do beijo e a necessidade apressada de gozo.

É, a humanidade está carente. Valeria, agora, uma reflexão acalentadora sobre o direito à educação do afeto. A educação para o afeto, pela experiência do afeto, do cuidado, da empatia. Era minha intenção inicial. Mas, vivendo todo esse contexto, nem comovido fico mais. Vem-me à cabeça Drummond… `Mas você não morre / você é duro, José! (…) você marcha José / José, para onde?`.

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GEBAKH

Eu integro um grupo da Linguística aqui na Universidade que estuda o pensamento do Círculo de Bakhtin. O texto a seguir é a minha resposta a um e-mail que tinha como objetivo resumir os acontecimentos do último encontro e suscitar novas reflexões. Suscitou isto. Ele representa uma tentativa de relacionar a filosofia do ato responsável à instabilidade dos gêneros discursivos (oi?).

Ei-lo:

Olás!

Aproveitando a bola levantada pelo professor Luciano, gostaria de tecer um breve (e inacabado) comentário sobre uma possível relação entre um dos pontos discutidos no Para uma Filosofia do Ato Responsável e a teoria dos gêneros discursivos.

Expresso como “tipos relativamente estáveis de enunciados”, fica claro que o conceito de gêneros do discurso refere-se a algo que é ao mesmo tempo estável e mutável. Estável porque conserva traços que o identificam como o gênero “tal” e mutável porque está em constante transformação.

+

De encontro ao que chamamos (e ele também) de “teoricismo”, Bakhtin nos ensina que são em nossas experiências singulares no mundo da vivência (PONZIO) única, ou seja, em nosso ato responsável, encarnado na vida real e irrepetível, que o mundo se constrói, que os sentidos se dão e o sujeito se (trans)forma. Não de modo abstrato, teórico e para-todo-o-sempre dada, mas encarnado, concreto e sempre inédito que a vida acontece. Entretanto, é essencial frisar que, com tal crítica, Bakhtin não estabelece o relativismo geral. Existem, sim, as “constâncias”, as leis gerais e etc. etc. e tal, mas não são elas que determinam coisa alguma no mundo, e, sim, a adesão responsável do sujeito a esta ou àquela lei, por exemplo. 

=

Penso que a relativa estabilidade do gênero pode ser entendida também a partir da filosofia do ato. Ele [o gênero] é estável porque a realidade concreta, suas condições de produção e de recepção o moldaram daquele jeito (esta seria, no parágrafo anterior, o que representaria a “lei geral”), mas é no ato responsável, ou seja, na utilização concreta da língua, no enunciado vivo, que o gênero existiria de fato, adaptando-se sempre à situação, sendo a cada utilização, único. 

Então, assim como não é uma lei abstrata que determina as nossas ações no mundo, a produção dos enunciados em sociedade não ocorre de maneira fixa e eternamente determinado. Logo, a articulação entre o repetível e o irrepetível, o geral e o específico, a estabilidade e a instabilidade (seja da vida ou do gênero do discurso) está presente na concepção do ato.

***

Mas por outro lado [acrescente aqui seu comentário]

A resposta que recebi: Silencio. No hay banda.  

¯\_(ツ)_/¯

E assim vambora fazendo.

As apertadinhas

Acho que nunca vou deixar de me surpreender com nossa capacidade de atingir níveis cada vez maiores de babaquice.

Particularmente, não gosto de música sertaneja. Não sertaneja trash (“Evidências” é amor, é vida). Essa eu até gosto. Quando toca no rádio, eu canto com falsete e tudo. Me faz lembrar dum passado bom que não existiu, mas de que eu lembro bem. Não gosto desses novos, do tal do universitário (que até hoje não entendo o porquê desse nome e, sinceramente, nem me interessa).

Não gosto de nada: nome de duplas, vozes, arranjos e nutro um nojo particular pelas letras. Tem sempre uma pegada misógina-ostentação-putaria-alcolismo.é.legal. Daí que eu tive a oportunidade de acessar um resumo de todo esse clichê-merdão em forma de festa/flyer.

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É sério isso, produção?!!

Pelo que eu entendi, as mulheres entram e bebem de graça até a primeira não segurar o xixi. Depois que a primeira vai ao banheiro a homarada entra. De preferência de pau duro e na mão. Porque, afinal de contas, a mulherada já vai estar trêbada facinha-facinha. Putz, tem que ser muito loser pra depender de álcool para conseguir uma trepada.

Fico pensando na alegria dos criadores quando pensaram neste maravilhoso (not) trocadilho para dar nome à festa.

Se fosse mulher – seria uma sapatão sinistraça –, proporia um boicote. Se não conseguisse quórum pra o intento, eu: 1) entraria na festa e iria direto pro banheiro; ou 2) beberia até fazer bico e quando os caras entrassem, sairia lindamente porque

Sei que minha visão ~do movimento sertanejo~ é limitada, mas qual visão não o é? E, além disso, nasci velho e tenho preguiça de toda essa zuera never ends. Entretanto, a parte que eu consigo ver dessa cultura não me agrada muito. Mas, como toda manifestação cultural, reconheço ser legítima e reflexo do nosso momento histórico.

Agora, uma nota para o futuro: vamos todos morrer de vergonha disso também daqui a alguns anos. Igualzinha a que temos do axé dos anos noventa, com aqueles shortinhos, coreografias e strip-teases ao vivo nos domingos à tarde. Escreve o que tô te dizendo. Aliás, precisa não, já escrevi.

Lugar de mulher

Tenho ouvido muito o último trabalho do Filarmônica de Pasárgada, o Rádio Lixão. A proposta desse segundo CD (que sucede o maravilindo O Hábito da Força), ao meu ver, é juntar vários ritmos musicais como se estivéssemos mesmo ouvindo uma rádio que toca de tudo um pouco e não um disco fiel a um único ritmo ou gênero.

Tal proposta por si já seria motivo mais que suficiente para eu ouvir Rádio Lixão até meus ouvidos sangrarem, mas tem mais. Muito mais. As letras são uma delícia e nos permitem construir relações com outras bandas, outros discos, outras letras, outros mundos… Das minhas faixas preferidas, destaco “Fiufiu”, um funk com uma batida que faz dar vontade de descer, subir, empinar, rebolar  e derrubar forninhos.

Mas um primor mesmo é a letra de “Fiufiu”. Graças a ela, de fato compreendi que – diferentemente do que eu pensava – nem toda mulher gosta de ser chamada de “gostosa” na rua, que um “fiufiu”, um “ô lá em casa”, um “te faço todinha” e afins podem, sim, ser percebidos como agressão e assédio, assim como uma encoxada no metrô e o “abuso no busão”.

Veja, ouça, goze o Filarmônica e depois a gente volta a se falar.

Particularmente interessado pelo assunto e, após ler o texto da Juliana Cunha sobre a menina da Raul Pompeia e assistir ao Na Moral, conheci o blog Lugar de Mulher (onde a Clara Averbuck ♥ ♥ também escreve) e a campanha “Chega de Fiu-Fiu” da qual eu amorosamente peguei emprestado essas belezuras de imagens.

 

É obvio que eu não passo por esse tipo de constrangimento, nasci sob o gênero masculino e não sou nada gostoso, mas muito me apetece essa manifestação pública de desagrado por parte das mulheres porque, olha só, a vida toda eu fui  levado a acredita que elas/vocês DE FATO gostavam disso. Algumas até gostam, é verdade, mas como diz outra imagem da campanha: “não dá pra brincar de roleta russa até achar o alvo”.

A televisão (sou da geração criada por essa maravilhosa babá eletrônica), com suas novelas, filmes, e desenhos animados, me ajudou a elaborar a ideia de que insulto seria se uma mulher, ao passar por um canteiro de obras (exemplo clássico!), não for chamada  a plenos pulmões, de “GOSTOSA!!!!!!!11!!”. Juro. Juro mesmo.

Ou então que as mulheres o tempo todo querem ser conquistadas e quando negam uma investida masculinas estão apenas querendo se fazer de difícil para apimentar a brincadeira toda. Resumindo: toda mulher é maluca e está desesperadamente atrás de um homem que cuide dela.

Uma onda de otimismo e muitas memórias (boas) de futuro me tomam quando percebo, ainda que localmente, movimentos de vozes milenarmente silenciadas se fazem ouvir com um volume cada vez maior como neste caso das mulheres. Fazendo barulho e mostrando que nada é, que tudo está sendo, numa eterna (re)construção.

Expectativa

Realidade

Realidade

Para casa

Daí que eu estava fazendo meu dever de casa sobre o ensino da modalidade oral da Língua para uma outra especialização que comecei há poucos meses.

Esta é minha primeira disciplina, o nome dela completo é (pausa para ver no Moodle): “A importância de se trabalhar a oralidade em sala de aula”, comecei bem aplicado. Lia tudo, via tudo, anotava tudo…até a 6ª semana (são 11 ao todo, HALP!) .

Para esta semana, tinha que assistir a um vídeo (de quase 20 minutos), ler um texto de mais de dez páginas e um artigo de não sei quantas outras (não sei mesmo, eu nem olhei). Fui direto para a questão porque eu percebi que, na verdade, estava respondendo A MESMA PERGUNTA semana após semana.

O comando para a atividade era diferente, o texto-resposta devia ser inédito of course, mas, na essência era sempre falar mais do mesmo. Não sou a pessoa que mais estudou nessa terra, Deus é testemunha, mas tudo que via, ouvia ou lia na plataforma já tinha visto, ouvido e lido ou sonhado em outra ocasião, em outra plataforma, em outro lugar.

Mas como não tô aqui para ficar falando mal de Curso de Especialização de ninguém – até porque é tudo muito bem organizadinho e tals – e quem sou eu para falar de quem cheira e fuma, não é mesmo?! — gostaria de compartilhar as minhas reflexões sobre o fazer pedagógico nas aulas de Português.

Somos seres sociais. Isso quer dizer que nossa existência está condicionada à convivência com nossos semelhantes. Claro está que conseguiríamos sobreviver sozinhos durante algum tempo, mas tão obvia quanto esta primeira afirmação é a ideia de que permanecer respirando, caminhando, comendo etc. não é viver no sentido amplo do termo. Sendo este possível apenas em comunidade.

Ao nos organizarmos em sociedade vamos, por meio da interação, moldando nossa forma de produzir e compreender os enunciados pelos quais nos comunica(re)mos. E essa linguagem que surge, toma forma e (relativamente) se estabiliza passa por todos esses estágios fortemente influenciada pelas características do povo que a constrói dia a dia, segundo a segundo. Assim sendo, cada comunidade local produzirá formas comunicativas que refletem e refratam sua prática cotidiana.

Entretanto, para que as várias comunidades locais consigam interagir entre si é imperativa a existência de uma norma, comum, assim, a todos os componentes de todos os grupos. A variedade padrão de uma língua é, portanto, aquilo que unirá todos os componentes de um determinado espaço geográfico naquilo que denominação nação, de modo que, quanto maior for o domínio por parte do indivíduo dessa variedade, maior será sua capacidade de se comunicar com os outros integrantes da nação.

Nosso primeiro contanto com a língua da nação  da qual fazemos parte vem de nossa experiência familiar. A língua natural, portanto, à primeira vista, é aquela de nossas interações íntimas, espontâneas, bem distante, algumas vezes, da variedade padrão. À medida que nossas relações (e, consequentemente, nós mesmos) se tornam mais complexas, tornamo-nos participantes de outras interações que não apenas aquela do seio familiar o que exigirá de nós novas posturas linguísticas, ou seja, o domínio de variantes linguísticas outras.

Um desses espaços de interação é representado pela escola. Na dinâmica escolar, com devido destaque às aulas de Língua, os indivíduos têm a oportunidade de refletir sobre o idioma que utilizam e, principalmente, desenvolver habilidades que permitam utilizar diferentes modalidades da sua língua a depender da situação vivida.

Muitas vezes, entretanto, nós – escola – confundimos “refletir acerca da língua” com “ensinar a língua”. Esquecemos que nosso público (e aqui falamos de aula de língua materna, obviamente) são nativos daquele idioma e transformamos as aulas em uma listagem inútil de regras estéreis do “bem falar” e do “escrever corretamente”, contribuindo para a formação de, pelo menos, dois sujeitos: 1) o frustrado, que acredita não ser capaz de sequer falar a língua que nasceu ouvindo e utilizando; ou 2) pessoas arrogantes e preconceituosas, que acreditam que, por dominar um conteúdo que julgam extremamente difícil, são melhores que todos os outros que não possuem memória suficiente para decorar e aplicar as regras a torto e a direito.

Pensar a língua é mais útil (e, convenhamos, muito mais agradável) que observá-la, descrevê-la, ensiná-la. Enquanto escola, enquanto professores de Língua, enquanto cidadãos que tiveram a oportunidade de construir um conhecimento específico e que se comprometeram a ajudar na sua difusão devemos tentar fazê-lo no sentido de libertar, abrir para possibilidades outras de compreensão do evento vida, no qual o popular não apenas conviva com o oficial, mas que um seja visto como extensão e/ou condição para existência do outro, em relação não mais dicotômica ou dialética, mas dialógica.