mas nem tanto

À prova de balas

desencana

This time, baby, I’ll be bulletproof. 

 

 

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Agora que sua ausência é certeira e seu retorno, improvável, me pego repetindo seu nome por puro hábito, pensando em você como um mundo distante, um outro planeta, um tempo feliz quase pré-histórico.

Fico até meio perdido. À semelhança de quem chega em casa e percebe que, de uma hora para a outra, levaram embora – como que por mágica – todas as paredes que antes divisavam os cômodos e fica sem saber o que fazer com toda aquela amplidão. Tá tudo muito amplo aqui após a sua partida. Muito vazio.

Por ser grande, seu corpo ocupa bastante espaço. A sua ausência fez um buraco enorme no ar. Um buraco no formato exato do seu corpo (como quando, num desenho animado, alguém atravessa uma porta com ela ainda fechada).

Agora que sua ausência é certeira e seu retorno, improvável, só sobrou isso para mim: uma lembrança em forma de buraco vazio.

TRIÂNGULO AMOROSO

Eu não sei gostar de você. Eu sinto que sinto, mas não sei o que fazer com o que sinto. Não sei como agir. Aí finjo. Finjo que tenho total noção dos meus atos. Aí simulo suspiros, dramatizo gemidos, calculo movimentos, estudos possíveis diálogos e me construo e me invento como aquilo que tenho: nada.

Eu nunca vivi nada sequer parecido, então, não tenho repertório psicológico algum. “É como se um cego que, sendo a vida toda cego, um dia simplesmente abrisse os olhos e visse. Mas visse o quê? Um triângulo mudo e incompreensível, mas alguém pode considerá-lo menos cego por enxergar um triângulo mudo e incompreensível?”

Qual a diferença entre o cego e aquele não entende o que seus olhos captam? Qual a diferença entre aquele que não entende e eu? Aquele abre os olhos e vê aquilo que sua compreensão não alcança. O mesmo acontece comigo, com a diferença de que eu vou além, eu finjo que entendo o triângulo e ainda ensino o sentido para os outros. E isso me impossibilita pra sempre de encontrar o real sentido da coisa. Do triângulo.

Mas eu vos pergunto: se não pela invenção, que outra forma há para se chegar ao real sentido de algo?

Frisson

Era o diabo em pessoa parado bem diante de mim. Não que cheirasse a enxofre ou soltasse fogo pelo nariz. Nada disso. O que havia era uma certa quentura abafada e sufocante que tornava o ar tão denso que quase se podia apalpar. Uma coisa mole escorrendo por dentro que talvez fosse verde, azul, amarela ou lilás, não importa, porque a cor deslizava cabreira e indiferente a tudo, insinuando que o mundo inteiro poderia acabar naquele exato instante.

Sua cara, que não ousaria chamar agora de rosto, sussurava sorrindo: “sim…vem…vem…sim”. O inferno inteiro pulsando e eu só queria estar ali, nos braços do satanás. A possibilidade proibida, o pecado mais sincero, a sagrada ilusão da entrega. Os olhos de cristal me fitavam. Desejei um céu vermelho, o chão batido, uma estaca cravada no peito no momento sublime do venha a nós. E a reciprocidade aflita e angustiante de quem oferecia apenas o pão nosso de cada dia torturaria o mais cético herege.

Foi quando neguei três vezes todas as vontades que batiam involuntárias dentro de qualquer órgão interno que nunca antes estivera ali. Neguei como Pedro havia negado o Cristo e todas as realidades na iminência de acontecer. Não! Mas o demônio continuava lá, imponente e faceiro, de mãos estendidas a um paraíso sagrado de luxúria e sedução.

Tentei pensar na tradição da Sagrada Família, na fidelidade eterna, na Santa Trindade, Pai, Filho, Espírito Santo. Acionei todas as intenções adormecidas de bondade, fraternidade, compaixão e fé. “Quero ser boa alma, quero ser boa alma, quero ser boa alma!”. “Afasta de mim esse cálice, oh, Pai, e livra-me para longe das tentações que habitam esse ser fraco de espírito, cujo destino é pecar!”. Ansiei ser uma só prece em uma só voz. Mas a divina possibilidade de estar ali dentro transformava tudo em quase nada.

E foi a linha tênue que cercava esse quase que podou os tentáculos que já se ameaçavam mostrar. Afundei os pés no chão, apaguei as luzes e adormeci enquanto rezava aos céus tendes piedade de mim.

A vida seguiria seu curso entre ovos mexidos no café-da-manhã, lençóis estendidos no varal e o rosto sóbrio da moça no telejornal da noite. Mas, desde então, o diabo aparece em minha janela todos os dias, sempre às três da tarde, provocando para o instante em que finalmente direi amém.

Nathalia Duprat

é permitido sentir falta do que nunca se teve?

sei que só te quero porque não posso. já listei características suas que, racionalmente, me fariam riscar você definitivamente de qualquer pensamento voluntário. por ironia ou não, é justamente a impossibilidade que me faz te querer mais, ainda mais.

a consciência desse sentimento sempre intransitivo cria em mim uma dor permanente que me sobe alegre e levemente doce à boca. o que me consola é pensar que ‘pelo menos terei pelo que chorar’. é que só sei viver assim: faltando.

Belos dias são horríveis

CSS – acho um pouco bom

Coincidência ou não, as maiores desgraças de que eu já ouvi falar aconteceram em um belo dia. O que eu, particularmente, sempre achei muito estranho. Afinal, uma noite feia (com chuva, raios, trovões e lobos uivando por toda parte) me parece bem mais apropriada para catástrofes que um dia bonito com seus pássaros cantores e crianças sorridentes.

Ainda assim, o ponto nodal de qualquer história sempre me foi anunciado por “”até que em um belo dia…””. Seis palavrinhas que passavam quase que despercebidas, “usadas para arredondar um período”, já me afirmaram alguns, ou então, “servem para ligar dois fatos em uma narrativa”, teorizaram outros. Mas não, para mim elas representam O Mal! Guardam em si um poder que pouquíssimas outras expressões possuem. Depois de ditas, colega, não tem mais como voltar atrás. Nosso cérebro dá até um clique pra gente saber que dali em diante é ladeira a baixo na certa.

Mas eu já saquei qualé. O objetivo é pegar o caboclo desprevenido. Pensa que tá tudo muito bom, que tá tudo muito bem, mas, de repente, PIMBA! a vida dá um cento.e.oitenta (pra pior, claro!) e o sujeito desmorona todo.

Acabei de ligar para o trabalho, aleguei conjuntivite. Não saio de casa, não atendo telefone, não ligo TV nem rádio; não abro correspondência, não recebo visita e não quero abrir whatsApp. Café da manhã: 2 comprimidos de RIVOTRIL e um DRAMIM para ajudar a descer.Viver? Hoje não, obrigado. Tenho medo. Motivo: tá fazendo o dia mais bonito que meus olhos já viram!